por: Valquíria Silva
Hoje nós vamos falar sobre a brincadeira. E se eu te contar que o brincar não é exclusivo do universo infantil? Brincar é da humanidade. É da vida. É da força criativa que pulsa silenciosamente em cada um de nós, mesmo quando crescemos, amadurecemos e nos afastamos de tudo aquilo que já fomos um dia.
Você já reparou nas dinâmicas de integração que os setores de RH costumam propor? Mesmo desconfortáveis no início, elas mobilizam algo essencial: o brincar nos desperta. O brincar envolve, engaja, aproxima. O brincar cria vínculo e se parece estranho participar dessas atividades, é porque, como diz Winnicott, ao longo da vida vamos perdendo contato com esse espaço potencial, esse território entre o real e o imaginário onde podemos ser inteiros, verdadeiros, espontâneos.
Mas esse espaço não morre. Ele fica guardado, esperando por nós.
Brincar é caminho para acessar níveis de consciência que o pensamento racional não alcança. Vigotski já dizia que é na brincadeira que a criança se torna maior do que ela mesma, operando em um nível de desenvolvimento que não seria possível apenas pela repetição ou pela lógica. E o adulto? Também cresce quando brinca. Porque, ao brincar, colocamos o cérebro em movimento criativo, favorecemos a resolução de problemas, ampliamos a capacidade de organizar tempo e espaço, e abrimos espaço para uma motivação mais profunda, aquela que nasce do prazer de existir e não da obrigação de performar.
O texto de hoje é um convite: libere a sua criança interior. Permita que ela caminhe ao seu lado na vida adulta. Não para te infantilizar, mas para te lembrar do que realmente importa. Para te mostrar que brincar é um encontro consigo mesmo, livre de julgamentos, livre dos papéis sociais que pesam nos ombros e apertam o peito.
Ser espontâneo, como lembra Brougère, não é ser irresponsável, é assumir que a criatividade é uma forma legítima de leitura do mundo. É compreender que, quando deixamos a brincadeira desaparecer da nossa vida, perdemos também o sentido de experimentação, o frescor da descoberta e a coragem de criar. E criar é o que nos move.
Esse fim de semana, tirei um tempo de qualidade em família. E a brincadeira estava lá. No chão da sala, na risada solta, no olhar curioso da criança explorando o mundo como se fosse sempre a primeira vez. Estar ali, presente, abriu em mim um espaço de leveza que nenhuma rede social, nenhum status e nenhuma agenda cheia são capazes de dar. Porque brincar, como diz Elkonin, é um modo de existir, não apenas de passar o tempo.
Quando um adulto se permite brincar, ele deixa que suas defesas caiam. Mas isso não é vulnerabilidade; isso é humanidade pulsando. É coragem. É libertação. É voltar a olhar para suas potencialidades, para suas dores, para suas histórias, sem precisar sustentar um personagem social inabalável.
Brincar devolve a nós a leveza que a vida adulta insiste em roubar.
Então, brinque. Brinque com seus filhos, com seus sobrinhos, com seus alunos, com seus pacientes. Brinque com a vida. Brinque com seus sonhos. Não deixe que a pressa, a rigidez ou a ideia de “ser adulto o suficiente” te afastem do que há de mais potente em você.
O brincar é um gesto de resistência num mundo que exige produtividade o tempo todo.
É um meio de nos reconectarmos com quem somos. É criatividade, motivação, afeto e presença.
E, no fundo, é isso que nos torna humanos.
