Por: Valquíria Silva

Antes de qualquer intervenção, antes de qualquer conteúdo, antes de qualquer objetivo pedagógico ou terapêutico, existe algo essencial: o vínculo.

Criar vínculo é um processo. E, diferente do que muitas vezes se espera, ele não é imediato, nem linear, nem igual para todas as crianças. O vínculo se constrói no tempo, no encontro, na repetição, na segurança e na leitura que a criança faz do outro, do ambiente e da relação que está sendo proposta.

Quando falamos de vínculo, falamos de relação humana. Seja no contexto terapêutico, na sala de aula, no encontro com novos amigos ou na inserção em um novo ambiente, a criança precisa, primeiro, sentir-se segura para existir naquele espaço, para pertencer. É a partir dessa segurança que ela começa a explorar, interagir, brincar, aprender e se desenvolver.

O vínculo não é pré-requisito técnico. É fundamento.

Cada criança estabelece vínculo de um jeito.
Algumas se aproximam rapidamente.
Outras precisam observar.
Algumas testam limites.
Outras se recolhem.

E tudo isso é comunicação.

O tempo necessário para a construção do vínculo depende de muitos fatores:
– da história daquela criança
– de suas experiências anteriores
– de suas vivências afetivas
– de suas condições de desenvolvimento
– de possíveis diagnósticos
– da forma como o adulto se apresenta
– da postura do terapeuta, do professor, do mediador

A criança observa. Ela percebe o tom de voz, o ritmo, o olhar, a previsibilidade, a escuta. Ela sente se aquele adulto está ali para controlá-la ou para caminhar junto. Ela percebe se aquele espaço é um lugar de exigência ou de acolhimento.

Vínculo é identificação

O vínculo se fortalece quando a criança começa a se identificar com o ambiente e com as pessoas que o compõem. Quando ela percebe que pode ser quem é, sem precisar se defender o tempo todo. Quando ela entende que o outro não é uma ameaça, mas um parceiro de brincadeira, de troca, de descoberta.

É nesse momento que o terapeuta deixa de ser apenas “quem propõe a atividade” e passa a ser alguém com quem se constrói algo.
É quando o professor deixa de ser apenas “quem ensina” e passa a ser alguém que caminha junto no processo de aprender.

Sem vínculo, a criança até pode executar tarefas.
Mas não há aprendizagem que se sustente no tempo.

A intervenção só se torna efetiva quando a criança se sente pertencente. Quando ela percebe que aquele lugar também é dela. Quando cria raízes emocionais suficientes para se arriscar, errar, tentar de novo, brincar, imaginar e construir sentidos.

Vínculo também é leitura do mundo

A forma como a criança constrói vínculo diz muito sobre como ela se relaciona com o mundo. Algumas chegam confiantes, outras chegam em alerta. Algumas se entregam ao brincar, outras precisam, primeiro, entender as regras do jogo social.

Por isso, não existe receita pronta.
Existe escuta.
Existe observação.
Existe disponibilidade.

Criar vínculo é aceitar o tempo da criança, sem pressa e sem comparação. É organizar o ambiente, a relação e as propostas de forma que ela possa, pouco a pouco, perceber: “aqui eu posso ficar”.

Quando o vínculo acontece, o brincar floresce

É no vínculo que o brincar ganha sentido. É nele que a criança passa a olhar para o outro como parceiro, e não como obstáculo. É nele que surgem as trocas, as narrativas, os combinados, os conflitos e as reconciliações, todos fundamentais para o desenvolvimento emocional e social.

É também nesse espaço que novas amizades se constroem. Que a criança aprende a se apresentar, a ouvir, a esperar, a negociar, a compartilhar. Habilidades que não se ensinam por instrução direta, mas que se aprendem na relação viva.

Um novo caminho que começa aqui

Este artigo abre uma temática muito especial para nós. Ao longo dos próximos 45 dias, vamos falar sobre vínculo, relações, encontros e brincadeiras que aproximam.

É dentro dessa perspectiva que nasce o jogo Conhecendo um Amigo, um tabuleiro que convida crianças a se apresentarem, se escutarem e se perceberem em relação. Um jogo pensado para criar pontes, abrir diálogos e favorecer encontros reais.

A curadoria desse jogo é da Dheisy psicóloga com abordagem psicanalista, que carrega um profundo amor por conhecer pessoas, compreender relações e escutar histórias. Esse cuidado atravessa toda a proposta do jogo e conversa diretamente com aquilo em que acreditamos: o desenvolvimento acontece quando a relação é verdadeira.

Seguiremos explorando essa temática com calma, respeito e profundidade. Porque vínculo não se acelera. Ele se constrói.

 

E quando ele se estabelece, o aprendizado deixa de ser apenas um objetivo, e passa a ser uma consequência natural do encontro.